Como o colorau é feito: da semente de urucum ao pacote


Pontos principais

  • O colorau sai de quatro etapas: semente seca e classificada, extração do pigmento, mistura com fubá e envase.
  • A semente deve secar até 7% a 10% de umidade; ao sol, são de 50 a 60 horas efetivas, segundo a Embrapa.
  • Na extração do pigmento, cerca de 94% a 96% do peso da semente vira resíduo, usado como adubo ou ração.
  • Sete marcas tinham de 154 a 354 mg de bixina por 100 g, mas os lotes de uma mesma marca variaram só de 3% a 14%.

O colorau é feito em quatro etapas: a semente de urucum, seca e classificada, tem o pigmento retirado, por atrito ou em óleo; o pigmento é misturado a um carreador, o fubá ou a farinha de mandioca, com ou sem sal e óleo; a mistura é peneirada e homogeneizada; e o pó segue para a embalagem.

Este texto acompanha o caminho do urucum da lavoura ao pacote, com o que cada etapa muda na cor, na umidade e na constância do produto. Serve para quem compra colorau e quer saber o que perguntar ao fornecedor, para quem pensa em fabricar e para quem só quer entender o que tem no pote. No fim, uma versão curta do colorau caseiro.

Tudo começa na colheita e na secagem da semente

A qualidade do colorau começa antes da fábrica, porque a semente mal seca ou maltratada perde pigmento. A Embrapa orienta colher o cacho quando a primeira cápsula começa a secar, o que acontece cerca de 90 dias depois da floração, e secar a semente até 7% a 10% de umidade, faixa aceitável para armazenamento. Ao sol, isso leva de 50 a 60 horas efetivas de insolação; em secador, a temperatura deve subir devagar e não passar de 60 °C, segundo o manual A cultura do urucum, da Embrapa.

Em Paranacity, o caderno de especificações da Indicação Geográfica descreve a secagem das cápsulas ao sol por cerca de 20 dias, com cuidado para que as sementes não fiquem expostas ao calor. O mesmo documento pede que o agricultor evite atrito em toda a cadeia, porque o corante, que fica no arilo que envolve a semente, é sensível à erosão e se perde com qualquer pressão. No Paraná, a colheita principal acontece entre junho e julho, e uma segunda entre novembro e dezembro, segundo a revisão de Demczuk e Ribani.

A separação das sementes das cápsulas, o descachopamento, pode ser manual, com a cápsula seca batida dentro de um saco, ou mecânica, em máquina que já separa e ventila as sementes. A revisão citada indica o método mecânico como o mais adequado, por perder menos corante.

A semente é classificada pelo teor de bixina e pela umidade

Antes de virar colorau, a semente é classificada, e a classe diz quanto pigmento ela vai entregar. A Circular Técnica 22 da Embrapa usa três tipos:

FatorTipo 1Tipo 2Tipo 3 (fora de especificação)
UmidadeMenor que 10%De 10% a 14%Maior que 14%
BixinaAcima de 2,5%De 2% a 2,5%Menor que 1,8%
ImpurezasMenor que 5%Menor que 5%Maior que 5%
Matéria estranhaAusenteAusentePresente

A Indicação Geográfica de Paranacity vai além do Tipo 1: pelo caderno registrado no INPI, a semente só pode ser vendida com o selo se a análise de laboratório, feita em amostra do lote, mostrar bixina de 5% ou mais. O que o selo garante e o que não garante está no texto sobre a Indicação Geográfica do urucum de Paranacity, e como ler esse número, no texto sobre o que é bixina e como ler o laudo.

Como é feito o colorau: o pigmento sai da semente por atrito ou em óleo

Para fazer colorau, a fábrica precisa separar o pigmento da semente ou usar a semente moída. A indústria de corantes conhece três processos comerciais de extração: o mais usado é a imersão em solução alcalina, seguido da imersão em óleo vegetal e do uso de solventes orgânicos, segundo Demczuk e Ribani. O colorau, por definição, usa as formas do pigmento que dissolvem em gordura. A Resolução CNNPA 12/1978 definia o colorífico como mistura de fubá ou farinha de mandioca com urucum em pó ou extrato oleoso de urucum.

RotaComo funcionaO que muda no colorau
Urucum em pó por atritoAs sementes são atritadas, em moinho ou em leito de jorro, para soltar a película colorida, recolhida como póPigmento concentrado, misturado a seco com o carreador
Extrato em óleoAs sementes ficam imersas em óleo vegetal refinado aquecido, que depois é filtradoO óleo colorido é incorporado ao fubá; o tom varia com a temperatura da extração
Semente trituradaA semente inteira é moída e misturada ao carreadorLeva junto o corpo da semente, sem pigmento, e a cor fica menos concentrada

A extração alcalina, a mais comum na indústria de corantes, transforma a bixina em norbixina, que dissolve em água e vai para outros produtos; é o caminho descrito no texto sobre o que é norbixina, e os extratos industriais estão em corante de urucum. No colorífico, a norbixina aparece só em traços, como mostraram as análises de Tocchini e Mercadante.

Quase todo o peso da semente sobra depois da extração do pigmento: a revisão de Demczuk e Ribani estima o resíduo em cerca de 94% a 96%. Seco e moído, esse farelo pode virar adubo, ingrediente de ração animal ou agente de pigmentação da gema de ovo, segundo a mesma revisão.

Na mistura, o carreador e a dose de pigmento definem a cor

A mistura é a etapa que decide a força do colorau. O pigmento, ou o óleo colorido, é incorporado ao carreador, que costuma ser o fubá e pode ser a farinha de mandioca, com ou sem sal e óleo. Não existe teor mínimo legal de bixina, e por isso cada fábrica define a sua dose: nas sete marcas analisadas por Tocchini e Mercadante, a bixina ia de 154 a 354 mg por 100 g, mas a variação entre lotes da mesma marca ficou entre 3% e 14%. Os autores concluíram que as fábricas tinham bom controle da matéria-prima e do processo; o que mudava era a receita de cada marca. A conclusão está no estudo publicado na Ciência e Tecnologia de Alimentos.

O que a norma antiga exigia da mistura, como o limite de sal e de umidade, está no texto sobre colorau e colorífico. A conta de quanto urucum vai no pacote e o papel do fubá estão em urucum e colorau são a mesma coisa?.

Peneirar, homogeneizar e controlar a umidade

Depois da mistura, o pó é peneirado e homogeneizado para que a cor fique igual em todo o lote, sem grumos de pigmento nem de fubá. É essa etapa que faz duas colheres do mesmo pacote tingirem igual.

A umidade é o ponto de controle que mais pesa no estoque. A norma de 1978 limitava as substâncias voláteis do colorífico a 12%, e a perda de corante durante o armazenamento está associada à umidade e à atividade de água do produto, à temperatura alta, à exposição ao ar e à umidade do ambiente, segundo Demczuk e Ribani. Produto seco conserva a cor e não cria mofo. A RDC 716/2022 manda especiarias e temperos cumprirem as normas de contaminantes, padrões microbiológicos, matérias estranhas e boas práticas de fabricação.

Para o comprador, isso se traduz em perguntas objetivas: como a fábrica controla a umidade, que análises faz por lote e se entrega laudo de bixina e laudo microbiológico. As práticas estão no texto sobre boas práticas de fabricação em temperos, os limites, em contaminantes em especiarias, e os documentos, em ficha técnica e laudo.

Envase: do sachê de 40 g ao big bag

O envase fecha o processo e protege o que foi feito antes. O extrato de urucum resiste bem à oxidação em meio sem água, mas tem resistência mais baixa à luz, segundo a mesma revisão de Demczuk e Ribani; embalagem fechada e estoque longe de luz direta preservam a cor.

A fábrica da Graneto, em Paranacity, processa, mói e envasa, com envase automatizado em embalagem transparente, que deixa ver a cor do produto. Por isso mesmo, gôndola e depósito devem ficar longe de sol e de lâmpada forte, como orienta o texto sobre como armazenar colorau sem perder a cor. Os formatos vão do sachê de 40 g e 50 g ao pacote de 1 kg e 5 kg, ao saco de 25 kg e ao big bag, e o que muda em cada um está nos formatos do colorau de Paranacity. Para quem compra a granel, a escolha entre saco e big bag está em big bag ou saco de 25 kg, e o fluxo completo de uma fábrica do setor, em como funciona uma fábrica de temperos.

Como fazer colorau caseiro, e por que o industrial é mais constante

Para fazer colorau caseiro, o caminho mais simples é o da extração em óleo, o mesmo princípio usado pela indústria:

  1. Tire a cor no óleo. Aqueça sementes de urucum em óleo vegetal, como o de soja, em fogo baixo e mexendo, até o óleo ficar vermelho, sem deixar fritar.
  2. Coe. Esse óleo colorido já é o colorau líquido, o óleo de urucum, e pode ir direto ao refogado.
  3. Misture ao carreador. Junte o óleo ao fubá, ou à farinha de mandioca, aos poucos, até formar um pó solto, como o colorífico que a norma de 1978 descrevia.
  4. Seque e peneire. Espalhe em camada fina até perder a umidade. Se usar o forno, deixe no mínimo e com a porta entreaberta: na secagem da própria semente, a Embrapa recomenda não passar de 60 °C.

Para um colorau "puro", sem fubá, moa a semente bem seca no liquidificador ou no moedor de grãos e peneire. O pó leva junto o corpo da semente, que não tem pigmento, e por isso é menos concentrado que o urucum em pó obtido por atrito; sem o fubá, porém, tinge mais por colher que o colorau comum. A rigor, esse pó é urucum moído, e não colorífico, que por definição leva fubá ou farinha de mandioca.

O colorau caseiro funciona para a cozinha da família, mas não tem controle de teor: a cor muda com a semente, com o tempo de fogo e com a proporção de cada vez. O feito com óleo também pode rançar, defeito que a norma de 1978 já proibia no colorífico. Guarde em pote fechado, longe da luz, e use em pouco tempo. Para cozinha profissional, em que a mesma receita precisa sair igual todo dia, o produto industrial com laudo é mais previsível, e o que forma o custo da matéria-prima está em quanto vale o quilo do urucum.

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Perguntas frequentes

Colorau é feito de quê?

De urucum e de um carreador. O pigmento da semente de urucum, em pó ou extraído em óleo, ou a própria semente moída, é misturado a fubá ou farinha de mandioca, com ou sem sal e óleo. A cor vem da bixina, o pigmento que cobre a semente.

Como fazer colorau caseiro?

Aqueça sementes de urucum em óleo vegetal, como o de soja, em fogo baixo, até o óleo ficar vermelho. Coe e misture esse óleo ao fubá ou à farinha de mandioca até formar um pó solto. Deixe secar, peneire e guarde em pote fechado, longe da luz. A cor muda a cada preparo, porque depende da semente e do tempo de fogo.

Como fazer colorau caseiro puro, só com urucum?

Moa a semente de urucum bem seca no liquidificador ou no moedor de grãos e peneire. O resultado é urucum moído: leva o corpo da semente, que não tem pigmento, e por isso é menos concentrado que o urucum em pó industrial, mas, sem fubá, tinge mais que o colorau comum. Pela definição técnica, colorífico é a mistura com fubá ou farinha de mandioca.

Quando colher o urucum?

Quando a primeira cápsula do cacho começa a secar, segundo a Embrapa, o que ocorre cerca de 90 dias depois da floração. Depois da colheita, as cápsulas secam até a semente chegar a 7% a 10% de umidade, faixa aceitável para armazenar. Em Paranacity, o caderno da Indicação Geográfica descreve a secagem das cápsulas ao sol por cerca de 20 dias.

Qual a diferença entre colorau industrial e caseiro?

O industrial parte de semente classificada, controla a dose de pigmento, a umidade e o peneiramento, e pode ter laudo de bixina por lote. O caseiro funciona na cozinha da família, mas muda de cor a cada preparo e, quando feito com óleo, pode rançar mais cedo.

Por que o colorau empedra?

Porque absorve umidade. A perda de cor e a formação de grumos estão ligadas à umidade do produto e do ambiente, à temperatura alta e à exposição ao ar. Guarde o colorau em embalagem bem fechada, em local seco, fresco e longe da luz direta.

O que acontece com a semente depois que o pigmento é retirado?

Vira resíduo, que corresponde à maior parte do peso da semente. Depois de seco e moído, esse farelo pode ser usado como adubo, como ingrediente de ração animal ou para pigmentar gema de ovo, segundo a revisão de Demczuk e Ribani sobre o urucum.

Publicado em Colorau e urucum

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