Colorau e urucum
Colorau ou colorífico faz mal? O que dizem a ANVISA e o comitê da FAO/OMS
Pontos principais
- A ANVISA autoriza a semente de urucum como especiaria (IN 159/2022) e o extrato como corante (IN 211/2023).
- A IDA da bixina é de até 12 mg por kg de peso por dia pelo JECFA e de 6 mg pela EFSA, que usou margem de 200 vezes.
- Um adulto de 60 kg precisaria comer cerca de 100 g por dia do colorau mais forte analisado para chegar ao limite da EFSA.
- Alergia ao urucum é rara: a EFSA registra dois casos de anafilaxia na literatura e chama o evento de muito raro.
Colorau, ou colorífico, não faz mal nas quantidades usadas para dar cor à comida, segundo as avaliações oficiais disponíveis. A ANVISA autoriza a semente de urucum como especiaria e o extrato como corante, e o comitê de aditivos da FAO e da OMS, o JECFA, fixou ingestão diária aceitável de até 12 mg de bixina por quilo de peso corporal.
Este texto reúne o que dizem a ANVISA, o JECFA e a autoridade europeia de segurança alimentar, a EFSA, faz a conta de quanto colorau corresponde a esse limite e responde às dúvidas mais buscadas, sobre fígado, intestino e alergia. Ele não substitui orientação individual: quem tem doença, alergia ou dieta restrita deve levar a dúvida ao médico ou ao nutricionista.
A ANVISA autoriza o urucum como especiaria e como corante
O urucum tem duas autorizações na ANVISA, uma para cada forma. A semente está na lista de especiarias da IN 159/2022, o que inclui o uso no colorau. O extrato, nas versões base bixina (INS 160b(i)) e base norbixina (INS 160b(ii)), é corante autorizado pela IN 211/2023 em dezenas de categorias de alimentos, de queijos a sopas, sempre com limite máximo.
As autorizações vêm com condições. O extrato tem teto por categoria, explicado no texto sobre o corante de urucum INS 160b. O colorau, como tempero, segue a RDC 716/2022, que manda especiarias e temperos cumprirem as normas de contaminantes, de padrões microbiológicos, de matérias estranhas e de boas práticas de fabricação.
Quanto de bixina é seguro: os limites do JECFA e da EFSA
Os dois comitês de referência fixaram uma ingestão diária aceitável (IDA) para cada pigmento do urucum, em miligramas por quilo de peso corporal por dia:
| Avaliação | Bixina | Norbixina | Como o limite foi calculado |
|---|---|---|---|
| JECFA, 2006 | 0 a 12 mg/kg | 0 a 0,6 mg/kg (com os sais de sódio e potássio) | Estudos com extratos de composição definida |
| EFSA, 2016 | 6 mg/kg | 0,3 mg/kg | Maior dose sem efeito adverso em ratos, em 90 dias, dividida por 200 |
A EFSA chegou aos seus números aplicando um fator de segurança de 200 às doses sem efeito adverso observadas em estudos de 90 dias com ratos, de 1.206 mg de bixina e 63 mg de norbixina por quilo de peso por dia, segundo o parecer de 2016 da EFSA. O JECFA estimou que a dieta média traz cerca de 1,5 mg de pigmento de urucum por dia, o que corresponde a cerca de 0,2% da IDA se todo o pigmento fosse bixina.
A história desse limite explica parte da desconfiança. Em 1999, a IDA do urucum era de 0 a 0,065 mg por quilo, expressa como bixina, e o JECFA registrou dados do Brasil indicando que 28% da população consumia semente de urucum como condimento, com ingestão da ordem de 150% daquela IDA. Em 2006, com novos estudos de toxicidade, o comitê fixou a IDA da bixina em 0 a 12 mg por quilo, cerca de 185 vezes a anterior, conforme a ficha do urucum no banco de dados do JECFA.
Há uma lacuna que vale conhecer. A IDA da bixina do JECFA cobre os extratos obtidos com solvente e com processo aquoso, mas não a bixina extraída em óleo, porque não havia dados de toxicidade nem de composição para esse extrato. Isso é falta de estudo, e não evidência de dano, mas é um ponto em aberto para um produto, o colorau, que pode ser feito com urucum extraído em óleo.
Quanto colorau equivale ao limite diário?
Comer muito colorau a ponto de chegar à IDA exige quantidades que nenhuma receita usa. Num exemplo com um adulto de 60 kg e o limite mais conservador, o da EFSA, a IDA é de 360 mg de bixina por dia. O colorau mais forte das sete marcas analisadas por Tocchini e Mercadante tinha 354 mg de bixina por 100 g: seria preciso comer cerca de 100 g dele por dia, todos os dias, para chegar ao limite. A tabela faz a mesma conta para outros pesos:
| Peso | IDA de bixina por dia | Colorau com 354 mg/100 g | Colorau com 154 mg/100 g |
|---|---|---|---|
| 20 kg | 120 mg | 34 g por dia | 78 g por dia |
| 60 kg | 360 mg | 102 g por dia | 234 g por dia |
| 80 kg | 480 mg | 136 g por dia | 312 g por dia |
Para comparação, 5 g por dia do colorau mais forte levam 17,7 mg de bixina, cerca de 5% da IDA de um adulto de 60 kg pela régua da EFSA, segundo a conta feita com os dados de EFSA e de Tocchini e Mercadante. Em crianças, o limite cai na proporção do peso, e a margem continua larga. Para bebês, o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, orienta temperar a comida da família com temperos naturais, ervas e especiarias e evitar temperos prontos em pó, em cubos ou líquidos; o guia não cita o colorau pelo nome, e o urucum é especiaria pela IN 159/2022. A norbixina, que tem IDA 20 vezes menor, aparece no colorau só em traços, porque o pigmento dele é quase todo bixina, como explica o texto sobre o que é a bixina.
Colorau faz mal para o fígado ou para os rins?
As avaliações do JECFA e da EFSA não apontam dano ao fígado nem aos rins pelo consumo de urucum nas quantidades usadas em alimentos. O fígado aparece nesses documentos por outro motivo: nos estudos de 90 dias com ratos, em doses muito altas, os efeitos observados foram aumento do peso do fígado e dos rins, com sinais de alteração de função nas doses maiores, e lesão nas células do fígado só nas duas doses mais altas do extrato de norbixina obtido com solvente. Foram esses resultados que serviram de base para a IDA, já com a margem de 200 vezes.
Em 2019, ao revisar a exposição da população europeia, a EFSA concluiu que nenhuma estimativa de consumo de bixina ultrapassava a IDA e que a exposição à norbixina, mesmo nos cenários de consumo alto, "não levanta preocupação de saúde", segundo o parecer de 2019 da EFSA. Quem tem doença no fígado ou nos rins e dúvida sobre a própria dieta deve conversar com o médico que o acompanha.
Colorau faz mal para o intestino?
Os pareceres da EFSA citados aqui não descrevem efeito adverso do urucum no intestino. Nesses pareceres, o intestino aparece como caminho de absorção: bixina e norbixina são absorvidas, e a norbixina é o pigmento que mais aparece no sangue e na urina, mesmo quando se consome bixina. Os efeitos adversos descritos nos estudos com animais, em doses muito acima do uso em alimentos, foram no fígado, nos rins e no sangue.
Em peso, o colorau é sobretudo fubá ou farinha de mandioca, como mostra o texto sobre a diferença entre urucum e colorau. Desconforto recorrente depois das refeições tem muitas causas possíveis e é caso para o médico ou o nutricionista, que avaliam a dieta inteira, e não um ingrediente isolado.
Alergia ao urucum existe, mas é rara
A alergia ao urucum é possível, mas rara, segundo a EFSA. O parecer de 2016 registra poucos estudos que apontam o extrato de urucum como possível causa de inchaço, urticária ou eczema, quase sempre testado junto com outros corantes, o que impede saber qual deles provocou a reação. Na literatura, foram descritos dois casos de reação anafilática atribuída ao urucum, que a EFSA classifica como "evento muito raro". O potencial alergênico da bixina parece maior que o da norbixina.
O urucum não está na lista dos principais alimentos que causam alergia da RDC 727/2022, e por isso o rótulo não traz advertência específica para ele. Quem já teve reação precisa ler a lista de ingredientes e procurar nomes como urucum, colorau, colorífico, extrato de urucum e INS 160b. As regras de declaração de alergênicos estão no texto sobre alergênicos em temperos, e a dúvida sobre glúten, no texto sobre se temperos têm glúten.
Colorau industrializado faz mal? O risco está na qualidade
O colorau industrializado segue as regras de qualquer tempero, e o que pode fazer mal nele não é o urucum, e sim um produto fora do padrão: umidade que vira mofo, contaminação microbiológica, sujidades. É para isso que existem as normas de contaminantes e de padrões microbiológicos que a RDC 716/2022 manda cumprir. Na compra, confira:
- Rótulo completo. Lote, validade e lista de ingredientes são obrigatórios em todo alimento embalado; o resto está no texto sobre o que a ANVISA exige no rótulo de temperos.
- Fornecedor regularizado. O que a fábrica precisa ter na vigilância sanitária está em temperos precisam de registro na ANVISA?.
- Laudos. Em compra de volume, peça laudo microbiológico além do laudo de bixina; os limites estão no texto sobre padrões microbiológicos e contaminantes em especiarias, e o que pedir, em ficha técnica e laudo.
- Boas práticas. Pergunte como a fábrica controla pragas, lotes e rastreabilidade, temas do texto sobre boas práticas de fabricação em temperos.
- Validade. O Código de Defesa do Consumidor considera impróprio ao consumo o produto com prazo de validade vencido (artigo 18); colorau vencido não deve ir para a panela nem para a gôndola.
- Armazenamento. Pó empedrado, cheiro de mofo ou de ranço indicam produto mal guardado, mesmo dentro da validade; o cuidado no estoque está em como armazenar colorau.
Ao cotar colorau com a Graneto ou com qualquer fornecedor, peça os laudos do lote junto com a proposta. Para conhecer a exigência de bixina da Indicação Geográfica do urucum, veja o teor de bixina no guia do colorau de Paranacity; e para usar o colorau na cozinha, o texto sobre para que serve o colorau. A forma do pigmento que dissolve em água tem um texto próprio: o que é norbixina.
Colorau de Paranacity, do sachê de 40 g ao big bag. A Graneto envasa colorau com urucum do polo de Paranacity para varejo, food service e indústria. Peça a cotação com o volume e a especificação de que você precisa.
Conhecer o colorau de ParanacityPerguntas frequentes
Colorífico faz mal?
Não nas quantidades de cozinha. Colorífico é o nome técnico do colorau, a mistura de urucum com fubá ou farinha de mandioca, e o pigmento dele, a bixina, tem ingestão diária aceitável de até 12 mg por quilo de peso pelo JECFA. Pelo limite mais rigoroso, o da EFSA, um adulto de 60 kg precisaria comer cerca de 100 g por dia do colorau mais forte analisado.
Bixina faz mal?
Nas quantidades usadas em alimentos, não, segundo o JECFA e a EFSA. O JECFA fixou ingestão diária aceitável de até 12 mg de bixina por quilo de peso corporal, e a EFSA, de 6 mg. Ao revisar o consumo na Europa, a EFSA concluiu que nenhuma estimativa de ingestão de bixina ultrapassava esse limite.
Urucum faz mal para os rins?
Não há indicação disso nas quantidades usadas em alimentos, no urucum nem no colorau. Nos estudos de 90 dias com ratos avaliados pela EFSA, doses muito altas de bixina e norbixina aumentaram o peso do fígado e dos rins, e foi a partir desses resultados que se fixou a IDA, já com margem de 200 vezes. Quem tem doença renal deve levar a dieta ao médico.
Criança e bebê podem comer colorau?
Podem, na quantidade usada para colorir a comida. Para uma criança de 20 kg, a IDA da EFSA equivale a 120 mg de bixina por dia, o que exigiria mais de 30 g diários do colorau mais forte analisado. Para bebês, o guia do Ministério da Saúde orienta usar temperos naturais e evitar temperos prontos; em caso de alergia, consulte o pediatra.
Colorau vencido faz mal?
Não use. O Código de Defesa do Consumidor considera impróprio ao uso e ao consumo o produto com prazo de validade vencido, e isso vale para o colorau. Mesmo dentro da validade, colorau empedrado, com cheiro de mofo ou de ranço, foi mal guardado e deve ser descartado; guardar o pacote fechado, longe de luz e umidade, evita a perda.
Por que já disseram que o colorau fazia mal?
Porque até 2006 o limite de segurança do urucum era muito menor. Em 1999, a IDA era de 0 a 0,065 mg por quilo, e dados do Brasil indicavam consumo acima dela entre quem usava a semente como condimento. Com novos estudos, o JECFA elevou a IDA da bixina para 0 a 12 mg por quilo.
Colorau é corante artificial?
Não. A cor do colorau vem da bixina, pigmento natural da semente de urucum, e o produto é feito com urucum e fubá ou farinha de mandioca. O extrato de urucum usado pela indústria também é de origem vegetal e aparece no rótulo como corante, seguido do nome extrato de urucum ou do código INS 160b.
Colorau pode dar alergia?
Pode, mas é raro. A EFSA registra na literatura dois casos de reação anafilática atribuída ao urucum e classifica o evento como muito raro. Como o urucum não está entre os alergênicos com advertência obrigatória da RDC 727/2022, quem já teve reação deve procurar na lista de ingredientes os nomes urucum, colorau, colorífico e INS 160b.
Publicado em Colorau e urucum
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