Urucum em cosméticos: o corante natural CI 75120 na maquiagem e no protetor

Batom vermelho-alaranjado e pote de bálsamo colorido com sementes de urucum espalhadas sobre fundo bege
Imagem ilustrativa.

Pontos principais

  • CI 75120 é o urucum no Color Index; a RDC 628/2022 o permite em todos os tipos de cosmético, inclusive na área dos olhos.
  • Estados Unidos e União Europeia também liberam o urucum em cosméticos em geral, com critérios de pureza de aditivo alimentar.
  • Cor de urucum não é fator de proteção: protetor solar e bronzeador exigem registro na ANVISA e filtros da lista oficial.
  • Em camundongos, a cis-bixina sensibilizou a pele a partir de 0,1%; a norbixina foi negativa até 20%.
  • Bixina vai em base oleosa, como batom e óleo corporal; norbixina, em base aquosa.

O urucum em cosméticos aparece no rótulo como CI 75120, o corante natural laranja que a RDC 628/2022 da ANVISA permite em todos os tipos de produto de higiene pessoal, cosmético e perfume, inclusive os aplicados na área dos olhos. Ele colore maquiagem e óleos para a pele; a cor do urucum, porém, não dá fator de proteção solar a ninguém.

Este texto é para quem formula ou compra matéria-prima para a indústria cosmética, para marcas que querem um corante de origem vegetal e para quem viu "CI 75120" num rótulo e quer saber o que é. Ele cruza a norma brasileira, a europeia e a americana, o que a pesquisa diz sobre alergia de contato e o que pedir ao fornecedor.

O que é o corante CI 75120?

CI 75120 é o número do urucum no Color Index, o catálogo internacional de corantes, e abrange os pigmentos bixina e norbixina extraídos da semente da Bixa orellana. As especificações do comitê de aditivos da FAO e da OMS listam "CI (1975) 75120 (Natural Orange 4)" como sinônimo dos extratos de urucum, nas monografias do JECFA. É o mesmo pigmento que, em alimentos, recebe o código INS 160b, descrito em corante de urucum INS 160b; os demais usos da semente estão em para que serve o urucum.

O nome científico do urucum é Bixa orellana L., planta da família Bixaceae nativa da América do Sul, mais precisamente da região amazônica. No comércio internacional ele é o annatto, e em espanhol, achiote, nomes que a revisão de Vilar e colegas (2014) lista ao lado de urucu e açafroa, usados no Brasil. Urucum e annatto são, portanto, a mesma planta e o mesmo corante.

Na União Europeia, o urucum está no Anexo IV do Regulamento (CE) 1223/2009, a lista de corantes cosméticos, com o nome "Annatto", cor laranja e critérios de pureza iguais aos do aditivo alimentar E 160b. O mesmo regulamento manda usar a nomenclatura do Color Index na lista de ingredientes, e é por isso que o urucum costuma aparecer como CI 75120 nos rótulos. No Brasil, a RDC 907/2024, que regula a regularização e a rotulagem de cosméticos, exige a lista de ingredientes pela Nomenclatura Internacional de Ingredientes Cosméticos (INCI) e manda seguir a lista de corantes da RDC 628/2022.

Onde o urucum pode ser usado em cosméticos?

O urucum pode ser usado em qualquer tipo de cosmético no Brasil: a RDC 628/2022 o coloca na coluna 1 da lista, a dos corantes permitidos para todos os tipos de produto. A resolução divide os corantes em quatro campos de aplicação, e o CI 75120 está no mais amplo. O carmim, CI 75470, também está na coluna 1; a comparação entre os dois está em urucum ou carmim.

Campos de aplicação da RDC 628/2022 e a posição do urucum (CI 75120)
ColunaOnde o corante pode ser usadoUrucum
1Todos os tipos de produtoSim
2Todos, exceto os aplicados na área dos olhosNão se aplica (está na coluna 1)
3Só produtos que não entram em contato com mucosasNão se aplica
4Só produtos de contato breve com pele e cabelosNão se aplica

As normas dos dois maiores mercados externos vão na mesma direção. Nos Estados Unidos, a norma 21 CFR 73.2030 da FDA permite o urucum em cosméticos em geral, inclusive os de uso na área dos olhos, em quantidade compatível com as boas práticas de fabricação e sem certificação de lote. Na União Europeia, o Anexo IV não traz restrição de campo de aplicação para o "Annatto". Duas ressalvas da norma brasileira: a lista da RDC 628 não cobre os corantes destinados exclusivamente a tingir cabelo, e os corantes precisam cumprir as especificações de identidade e pureza dos organismos internacionais de referência (artigo 4º).

Urucum protege do sol ou serve de bronzeador?

O urucum pode colorir um óleo ou um bronzeador, mas não protege do sol no sentido regulatório: no Brasil, ele entra na lista de corantes, e o fator de proteção de um protetor solar depende dos filtros ultravioleta da lista própria e de comprovação de eficácia do produto acabado. A RDC 907/2024 manda os cosméticos seguirem a lista de filtros ultravioleta da RDC 600/2022 e classifica protetor solar e bronzeador entre os produtos sujeitos a registro na ANVISA (artigo 34), com dados de segurança e eficácia.

A fama vem da tradição. A revisão de Vilar e colegas registra que povos indígenas usam o urucum na pele em rituais e para se proteger da radiação ultravioleta e de mosquitos, e que hoje o pigmento é aplicado em maquiagem e protetor solar. A ficha técnica da Indicação Geográfica de Paranacity, no INPI, cita o urucum como ingrediente de bronzeadores (o que essa IG exige da semente está em Indicação Geográfica do urucum de Paranacity). Entre esse uso e uma promessa de proteção, a norma é clara: produto que se apresenta como ativador ou acelerador do bronzeado precisa trazer no rótulo a frase "Este produto não é um protetor solar", segundo a RDC 907/2024.

Para o formulador: se a cor do urucum entra num óleo ou bronzeador, a comunicação deve falar de cor e de cuidado da pele, nunca de FPS, a menos que o produto tenha filtros da lista oficial e seja registrado como protetor solar.

Bixina ou norbixina: qual forma vai em cada cosmético?

A bixina, solúvel em óleo, serve a produtos de base oleosa, como batom, bálsamo labial e óleo corporal; a norbixina, solúvel em água alcalina, a produtos aquosos. A diferença de solubilidade está registrada nas especificações do JECFA, e a química das duas formas, em o que é norbixina. Para escolher o lote, o número que manda é o teor de pigmento, explicado em o que é bixina.

Na semente, a bixina está sobretudo na forma cis: as especificações do JECFA apontam a cis-bixina como o principal princípio corante do extrato, com a trans-bixina como componente menor. A cis-bixina é também a forma testada no estudo de alergia descrito na próxima seção.

A estabilidade pede atenção na embalagem. A perda de cor do urucum por oxidação depende da temperatura, da luz e principalmente do oxigênio disponível, segundo a revisão de Constant, Stringheta e Sandi no Boletim do CEPPA. Frasco transparente exposto à luz e produto com muito ar no espaço livre são os cenários de maior risco; teste de estabilidade com a embalagem final evita que o tom mude na prateleira.

Urucum causa alergia na pele?

Pode causar em pessoas sensíveis: em testes com camundongos, o extrato de urucum e a cis-bixina provocaram sensibilização de contato, e a norbixina não. No estudo de Auttachoat e colegas, publicado na Food and Chemical Toxicology em 2011, a cis-bixina deu resposta positiva em concentrações de 0,1% a 0,5%, enquanto a norbixina foi negativa nos dois testes mesmo entre 1% e 20%.

O resultado é de modelo animal e não mede a frequência de alergia em pessoas, mas orienta a formulação: em produto que fica na pele, a forma do pigmento e a concentração entram na avaliação de segurança que a RDC 907/2024 exige do titular do produto. Quem já teve reação a um cosmético colorido deve procurar um dermatologista. O lado alimentar dessa discussão está em colorau faz mal?.

Como comprar urucum para a indústria cosmética

Para comprar urucum para cosméticos, peça matéria-prima com especificação de grau cosmético: forma do pigmento, teor no lote, pureza com limites de metais e documentação para a regularização do produto. O checklist:

  • Identidade e nome: CI 75120 e a denominação INCI do material, para a lista de ingredientes.
  • Teor de pigmento do lote, em bixina ou norbixina, com o método de análise. O que conferir num laudo está em ficha técnica e laudo.
  • Pureza: para comparação, a FDA fixa no extrato de urucum no máximo 3 partes por milhão de arsênio e 10 de chumbo, na norma 21 CFR 73.30, que também lista os solventes de extração permitidos.
  • Veículo e solvente residual: óleo, glicol ou água alcalina, e o resíduo do solvente usado na extração.
  • Estoque: embalagem fechada, longe de luz e calor; os cuidados valem tanto para o extrato quanto para o pó, como mostra como armazenar colorau e urucum.

Um alerta de compra: o colorau é tempero, feito de urucum com fubá ou óleo, e não é matéria-prima cosmética, mesmo vindo da mesma semente. A diferença entre os produtos está em urucum e colorau são a mesma coisa?. A semente brasileira, que abastece corantes para alimentos, medicamentos e cosméticos, vem de poucos polos, descritos em produção de urucum no Brasil; o polo de Paranacity e as aplicações industriais do urucum estão na página do colorau de Paranacity. O uso do mesmo pigmento em fibras e couro está em tingimento natural com urucum, e a série completa sobre a cultura, no tema colorau e urucum.

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Perguntas frequentes

Qual é o nome científico do urucum?

Bixa orellana L., da família Bixaceae. É uma planta nativa da América do Sul, da região amazônica, cujas sementes são cobertas por um arilo vermelho rico em bixina. É esse pigmento que a indústria cosmética usa como corante CI 75120 e a de alimentos, como INS 160b. No Brasil, a planta também é chamada de urucu e urucuzeiro.

Urucum e annatto são a mesma coisa?

São. Annatto é o nome do urucum no comércio internacional e em inglês, e achiote é um dos nomes em espanhol. A planta é a mesma, Bixa orellana, e o corante também: nos rótulos de cosméticos ele aparece como CI 75120, e na lista europeia de corantes cosméticos, com o nome Annatto e os critérios de pureza do aditivo E 160b.

CI 75120 é natural?

Sim. CI 75120 é o número do Color Index para o urucum, o pigmento extraído das sementes da Bixa orellana, formado por bixina e norbixina. É de origem vegetal e corresponde ao corante que, em alimentos, recebe o código INS 160b. A forma comercial pode vir em óleo, glicol ou água alcalina.

Óleo de urucum funciona como bronzeador ou protetor solar?

Ele pode dar cor a um óleo ou bronzeador, mas não pode ser vendido como protetor. No Brasil, protetor solar e bronzeador precisam de registro na ANVISA, e o fator de proteção depende de filtros da lista oficial e de comprovação de eficácia. Produto que ativa o bronzeado deve trazer no rótulo a frase "Este produto não é um protetor solar".

Urucum pode ser usado em batom e sombra?

Pode. A RDC 628/2022 coloca o CI 75120 na coluna dos corantes permitidos para todos os tipos de produto, o que inclui produtos para lábios e para a área dos olhos. A norma americana também libera o urucum em cosméticos de uso nos olhos. A forma oleosa, a bixina, é a que combina com batom.

O que é cis-bixina?

É a forma natural da bixina na semente de urucum, com uma das ligações duplas da molécula na configuração cis. As especificações do JECFA apontam a cis-bixina como o principal princípio corante do extrato de bixina. Em testes com camundongos publicados em 2011, ela sensibilizou a pele a partir de 0,1%, enquanto a norbixina foi negativa até 20%.

Qual o nome do urucum na lista de ingredientes do cosmético?

Como corante, o urucum aparece pelo número do Color Index, CI 75120, que é a nomenclatura exigida pela regra europeia e usada na lista de corantes da ANVISA. Extratos e óleos da semente usados por outras funções têm denominação própria na nomenclatura INCI, que a RDC 907/2024 exige no Brasil.

Publicado em Colorau e urucum

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