Urucum em embutidos: como a indústria de carnes usa o corante

Linguiças com cor alaranjada numa tábua de madeira ao lado de uma tigela de sementes de urucum
Imagem ilustrativa.

Pontos principais

  • A IN 211/2023 autoriza o extrato de urucum em produtos cárneos industrializados até 20 mg/kg, só no tratamento de superfície.
  • Na massa de salsicha, linguiça e presunto industrializados, a mesma norma admite carmim até 100 mg/kg, mas não o extrato de urucum.
  • Bixina vai em meio gorduroso; norbixina, em solução aquosa. O calor entre 70 °C e 125 °C degrada a bixina em compostos amarelos.
  • Um estudo trocou 60% do nitrito por urucum em salsicha sem perder cor, mas o nitrito é conservante e a regra brasileira não mudou.
  • Colorau com extrato de urucum leva o aditivo junto: peça a composição completa ao fornecedor antes de usar em produto registrado.

O urucum em embutidos industrializados entra, no Brasil, pelo lado de fora: a IN ANVISA 211/2023 autoriza o extrato de urucum em salsichas, linguiças, salames e outros produtos cárneos industrializados até 20 mg/kg, e só no tratamento de superfície. Na massa, a norma admite outros corantes, como o carmim, e o urucum chega como tempero, no colorau.

Este texto é para quem formula ou compra ingrediente para frigorífico, fábrica de embutidos e açougue que produz linguiça, e para quem vende corante e condimento a esse cliente. Ele mostra o que a norma permite em cada tipo de produto, qual forma do urucum usar, o que a pesquisa diz sobre urucum no lugar do nitrito e o que pedir ao fornecedor.

O que a IN 211 permite de urucum em embutidos?

A IN 211/2023 permite o extrato de urucum, base bixina ou base norbixina, até 20 mg por kg em produtos cárneos industrializados frescos, secos e cozidos, sempre restrito à superfície. Nas conservas e semiconservas, o uso vale só para a superfície de salsichas em conserva, e nos produtos salgados e desidratados o urucum não aparece na lista. O carmim, por comparação, tem limite de 100 mg/kg sem restrição à superfície nessas mesmas categorias; cúrcuma, páprica e beterraba, os outros naturais da lista, estão comparados em corantes naturais na indústria de alimentos.

Corantes naturais em carnes e produtos cárneos pela IN ANVISA 211/2023 (texto consolidado em outubro de 2026), em mg por kg
Categoria da IN 211ExemplosExtrato de urucum (INS 160b)Carmim (INS 120)
08.1.1 Carnes in naturaCortes resfriados e congeladosNão autorizado (nenhum aditivo)Não autorizado
08.2.1.1 Industrializados frescosLinguiça frescal, hambúrguer cru20, só tratamento de superfície100
08.2.1.2 Industrializados secosSalame20, só na superfície100
08.2.1.3 Industrializados cozidosSalsicha, mortadela, presunto20, só na superfície100
08.2.2 Salgados crus e cozidosCharque e outros salgadosNão listado100 nos cozidos
08.2.3 Conservas e semiconservasSalsicha em lata ou vidro20, só na superfície de salsichas em conserva100
08.2.4.1 DesidratadosProdutos cárneos desidratadosNão listado100

Os exemplos da segunda coluna são nossos, para orientar a leitura; a norma define as categorias pelo processo. "Frescos" são produtos crus que não passaram por cozimento nem secagem, "secos" passaram por desidratação parcial e "cozidos" foram submetidos a cozimento, qualquer que seja a forma de elaboração. Os limites são expressos em bixina ou norbixina, e a regra se aplica a produto sob inspeção oficial porque o Decreto 9.013/2017, o regulamento de inspeção de produtos de origem animal, manda seguir os aditivos e limites definidos pelo órgão de saúde (artigo 270).

Quando o rótulo de um embutido traz "bixina e curcumina", são dois corantes somados: o extrato de urucum e a curcumina, INS 100(i), extraída de rizomas de Curcuma longa. A ANVISA não limita o número de corantes no mesmo produto, desde que cada um fique dentro do seu limite e da sua condição de uso, segundo as perguntas e respostas da ANVISA sobre aditivos. Num embutido, isso significa curcumina na massa e urucum só na superfície.

O limite de 20 mg/kg vem de 1998 e cobre só a função de corante

O teto de 20 mg/kg para o urucum em carnes não é novo: ele já estava na Portaria 1.004/1998, que limitava o urucum a 0,002 g por 100 g de produto cárneo e vetava o uso em carnes frescais ou congeladas. O histórico está na revisão de Garcia e colegas publicada em 2012 na Ciência Rural, que critica dois pontos da regra: ela não distingue extrato, bixina ou norbixina, e reconhece o urucum só como corante, embora a literatura mostre efeito antioxidante.

Os estudos reunidos na revisão ajudam a entender o potencial. Num deles, a norbixina usada no lugar do antioxidante sintético eritorbato de sódio em salsichas reduziu em cerca de 20% os níveis de malonaldeído, um marcador de rancidez; noutro, hambúrgueres de frango com urucum oxidaram menos ao longo de 120 dias a 18 °C negativos, segundo a mesma revisão da Ciência Rural. Para quem formula hoje, porém, vale a norma: no Brasil, o urucum entra no produto cárneo como corante, com limite e local definidos. A comparação completa com o carmim está em urucum ou carmim.

Bixina ou norbixina: qual forma usar no embutido?

A bixina é lipossolúvel e vai bem em meio gorduroso; a norbixina é hidrossolúvel e é a forma usada em soluções aquosas, como banhos de cor. A bixina, o corante natural do urucum, é um carotenoide de cadeia aberta e cor laranja-avermelhada, diferente do betacaroteno, que tem anéis nas pontas e é outro aditivo, o INS 160a, segundo a revisão de Rodriguez-Amaya e colegas na revista Foods. A diferença entre as duas formas vem do grupo éster da bixina, que a norbixina perde na hidrólise alcalina, como explica a revisão da Ciência Rural. A revisão do Boletim do CEPPA cita os produtos cárneos, como salsichas, entre as aplicações do corante hidrossolúvel do urucum. Os detalhes da forma solúvel em água estão em o que é norbixina.

Na linha de produção, três fatores pesam na escolha e na dose:

  • Calor. A bixina se degrada com aquecimento e forma isômeros e um composto amarelo, como mediram Rios, Borsarelli e Mercadante entre 70 °C e 125 °C. Em produto cozido ou defumado, teste a cor depois do processo, e não na massa crua.
  • Luz e oxigênio. A perda de cor do urucum por oxidação depende da temperatura, da luz e do oxigênio disponível, segundo o Boletim do CEPPA. Embalagem a vácuo e vitrine protegida da luz direta ajudam a segurar o tom.
  • pH. A cor da bixina muda com o pH, do amarelo-alaranjado a um rosa fraco, segundo a mesma revisão; e a norbixina sai de solução quando o meio é acidificado, que é justamente como a indústria a precipita, segundo a especificação do JECFA. Em salmoura ou banho ácido, teste antes.

Como o limite é de 20 mg/kg em pigmento, a dose de produto comercial depende do teor do lote: um extrato com o dobro de pigmento usa metade da quantidade para o mesmo tom. É por isso que o laudo pesa na compra, como mostra o guia o que é bixina e como ela define o colorau.

O urucum pode substituir o nitrito na salsicha?

Não como regra: um estudo trocou parte do nitrito por urucum em salsichas e manteve a cor, mas o nitrito é conservante e a norma brasileira só admite o urucum como corante de superfície. No trabalho de Zarringhalami e colegas, publicado na Meat Science, pó de urucum com 1% de norbixina substituiu de 20% a 100% do nitrito em duas formulações; a troca de 60% deu a melhor cor e não diferiu do controle em contagem microbiana e avaliação sensorial ao longo de 30 dias de refrigeração.

O resultado é promissor para a cor, mas não autoriza tirar nitrito de uma formulação brasileira. O nitrito é classificado como conservante pela legislação, lembra a revisão da Ciência Rural, e sua função vai além do tom vermelho. E, aqui, o extrato de urucum nem está autorizado na massa dessas categorias. Qualquer mudança de formulação de produto registrado passa pelo responsável técnico e pelo serviço de inspeção.

E o colorau na linguiça do açougue ou da fábrica?

O colorau entra no embutido como condimento, e não como aditivo, mas pode carregar extrato de urucum, e aí a regra do aditivo volta a valer. O colorífico é a mistura de fubá com urucum em pó ou com extrato oleoso, como descrevem Fabri e Teramoto. Quando o colorau contém extrato, a presença do aditivo no produto final segue o princípio da transferência do artigo 10 da RDC 778/2023, que impõe condições de uso e de quantidade.

Na prática, duas perguntas resolvem a maioria dos casos:

  1. O colorau tem extrato de urucum adicionado? Peça a composição completa ao fornecedor; o regulamento de inspeção exige que ingredientes e aditivos combinados informem composição e percentuais no registro do produto (artigo 431 do Decreto 9.013/2017).
  2. O produto é registrado em serviço de inspeção? Se for, o enquadramento do condimento e do corante passa pelo responsável técnico. O mesmo decreto exige que condimentos e especiarias usados em produtos de origem animal sejam isentos de substâncias estranhas (artigo 271).

Para o açougue que faz linguiça para venda direta, o colorau é um dos temperos da casa, ao lado do sal e das misturas para churrasco; o mix completo está em temperos que o açougue precisa ter. A diferença entre colorau, colorífico e urucum em pó está em colorau e colorífico são a mesma coisa?, e o processo de fabricação, em como o colorau é feito.

Como comprar urucum para a indústria de carnes

Para comprar urucum para embutidos, especifique a forma (bixina ou norbixina, ou colorau como tempero), exija laudo de pigmento do lote e ficha técnica com composição completa. O checklist que evita surpresa na linha:

  • Forma e veículo: extrato oleoso, solução hidrossolúvel ou pó, e em que veículo vem (óleo, água alcalina, maltodextrina).
  • Teor de pigmento do lote: em bixina ou norbixina, com método de análise. O que conferir no documento está em ficha técnica e laudo do fornecedor.
  • Composição declarada: se há outros corantes, sal ou carreadores, com percentuais, para o registro do produto e para a lista de ingredientes; o que o rótulo precisa mostrar está em rotulagem de temperos e condimentos.
  • Boas práticas do fornecedor: o que exigir da fábrica de condimentos está em boas práticas de fabricação em temperos.
  • Embalagem e estoque: volume grande em saco de 25 kg ou big bag, guardado longe da luz e do calor; a comparação entre os formatos está em big bag ou saco de 25 kg, e o armazenamento, em como armazenar colorau e urucum.

Se a necessidade é extrato padronizado para a superfície do embutido, o fornecedor é a indústria de corantes, e o guia corante de urucum INS 160b ajuda a especificar. Se o urucum entra como tempero, no colorau, a Graneto fornece colorau de Paranacity em saco de 25 kg e big bag, com laudo de bixina do lote sob pedido; as outras aplicações industriais estão na página do colorau de Paranacity.

Colorau de Paranacity, do sachê de 40 g ao big bag. A Graneto envasa colorau com urucum do polo de Paranacity para varejo, food service e indústria. Peça a cotação com o volume e a especificação de que você precisa.

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Perguntas frequentes

Pode usar colorau na linguiça?

O colorau entra na linguiça como condimento, e é comum no açougue e na fábrica. Se o produto for registrado em serviço de inspeção, confira com o responsável técnico, porque alguns coloraus levam extrato de urucum, que é aditivo, e a presença dele no produto final segue regras próprias da ANVISA.

Por que a salsicha é vermelha por fora?

Quando a cor está só por fora, ela vem de um tratamento de superfície com corante. A IN 211/2023 permite extrato de urucum até 20 mg/kg em produtos cárneos industrializados apenas na superfície, e o carmim também é autorizado nessas categorias. A lista de ingredientes do rótulo informa qual corante foi usado.

Qual corante natural pode ir na massa do embutido?

Pela IN 211/2023, nas categorias de produtos cárneos industrializados frescos, secos e cozidos, o carmim é autorizado até 100 mg/kg sem restrição à superfície, assim como curcumina, extrato de páprica, betacaroteno vegetal e vermelho de beterraba, cada um com seu limite. O extrato de urucum fica restrito à superfície.

O que é bixina e curcumina no rótulo?

São dois corantes naturais usados juntos: a bixina, pigmento do urucum, de cor laranja-avermelhada, e a curcumina, INS 100(i), extraída do rizoma da cúrcuma, de cor amarela. A ANVISA não limita o número de corantes no mesmo produto, desde que cada um respeite o limite da categoria; em embutidos, o urucum só vale na superfície.

Urucum tem betacaroteno?

O pigmento do urucum é a bixina, e não o betacaroteno. Os dois são carotenoides, mas a bixina tem cadeia aberta e cor laranja-avermelhada, enquanto o betacaroteno tem anéis nas pontas e tom amarelo-alaranjado. Na IN 211/2023 eles são aditivos diferentes: o extrato de urucum é o INS 160b, e o betacaroteno, o INS 160a.

Como usar colorau na carne moída e nos bifes?

Junte o colorau à gordura: no refogado de alho e cebola, antes de pôr a carne moída, ou na marinada com óleo, no caso de bifes e frango. A bixina não dissolve em água, e é a gordura que espalha a cor pela carne. Comece com pouco e ajuste pelo tom, porque a força da cor muda de marca para marca.

Publicado em Colorau e urucum

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