Urucum em queijos e laticínios: a cor do cheddar, do prato e da manteiga

Queijo cheddar laranja e fatias de queijo prato numa tábua com manteiga e algumas sementes de urucum
Imagem ilustrativa.

Pontos principais

  • A IN 211/2023, atualizada pela IN 286/2024, permite em queijos até 20 mg/kg de urucum base bixina e 25 mg/kg base norbixina.
  • Na manteiga, o extrato de urucum é liberado em quantidade suficiente para o efeito, sem limite numérico.
  • Norbixina, solúvel em água, é a forma do queijo; bixina, solúvel em óleo, a da manteiga e da margarina.
  • Parte do urucum sai com o soro, que costuma ser branqueado, e o branqueamento piora o sabor, segundo o Journal of Dairy Science.
  • Nos Estados Unidos, o corante é opcional no cheddar e não muda o nome: por isso existem cheddar branco e laranja.

O urucum em queijo é o corante que dá o laranja do cheddar e o amarelo de queijos como o prato. No Brasil, a IN ANVISA 211/2023 permite o extrato de urucum em queijos até 20 mg/kg, expresso em bixina, ou 25 mg/kg, em norbixina, e na manteiga sem limite numérico.

Este texto é para quem fabrica queijo, manteiga e outros laticínios, para quem compra corante para essas linhas e para quem quer entender por que dois queijos do mesmo tipo têm cores diferentes. Ele reúne a norma brasileira atualizada, a literatura sobre urucum em laticínios e o que pedir ao fornecedor para manter a cor constante.

Quanto urucum a ANVISA permite em queijos e laticínios?

A IN 211/2023 permite até 20 mg/kg de extrato de urucum base bixina e 25 mg/kg de base norbixina em queijos frescos, maturados, processados e em pó, e libera o uso na manteiga em quantidade suficiente para o efeito (quantum satis). Esses limites são da reorganização das categorias de queijo feita pela IN 286/2024; no texto original de 2023, o teto era de 10 mg/kg. A tabela traz o texto consolidado consultado em outubro de 2026 no portal de normas da ANVISA.

Extrato de urucum em laticínios pela IN ANVISA 211/2023 (texto consolidado), em mg por kg
CategoriaExemplos citados na normaBase bixinaBase norbixina
01.7.1 Queijos não maturadosMinas Frescal, mozzarella2025
01.7.2 Queijos maturadosPrato, parmesão, tilsit, tybo2025
01.7.3 Queijos de soroSó os aromatizados ou com adições2025
01.7.4 Queijos processados ou fundidosInclui queijo em pó2025
02.2.1 ManteigaManteigaQuantum satisQuantum satis
02.2.2 MargarinasMargarinas e emulsões gordurosas100100
01.2.2 Leites fermentados adoçados ou aromatizadosIogurtes com açúcar ou sabor2020
01.1.3.2 Bebidas lácteas com adiçõesBebidas lácteas1010

Duas leituras práticas. A gordura anidra de leite não traz o urucum na lista de corantes, então a cor da manteiga se resolve na própria manteiga. E o regulamento de inspeção de produtos de origem animal, o Decreto 9.013/2017, diz que os produtos lácteos só podem conter aditivos quando funcionalmente necessários para o processamento (artigo 364): a cor precisa ter uma razão técnica, como padronizar o tom entre lotes.

Por que o cheddar é laranja e o queijo prato é amarelo?

O cheddar laranja e o queijo prato amarelado recebem corante de urucum para ter a cor padronizada; sem ele, o tom varia com o leite. A revisão de Kang e colegas, publicada em 2010 no Journal of Dairy Science, descreve o urucum como o corante mais usado para produzir queijos laranja como o cheddar, justamente para manter a cor constante ao longo das mudanças de estação.

Nos Estados Unidos, a cor é opcional e não muda o nome: o padrão de identidade do cheddar, na norma 21 CFR 133.113 da FDA, lista o corante entre os ingredientes opcionais, por isso existem cheddar branco e cheddar laranja. No Brasil, a revisão de Constant, Stringheta e Sandi, no Boletim do CEPPA, registra que o corante hidrossolúvel de urucum é tradicionalmente usado em queijos como o prato, que a IN 211 cita nominalmente entre os maturados.

A cor também mexe com a expectativa de sabor. Num estudo da Universidade Estadual da Carolina do Norte publicado em 2024 no Journal of Dairy Science, consumidores associaram o cheddar laranja a um sabor mais forte, tanto em questionário on-line quanto em teste de aceitação com 196 pessoas. Nas doses da norma, o urucum entra pela cor, e o estudo mostra que a cor, sozinha, já muda o que o consumidor espera provar.

A demanda dos laticínios é antiga e explica parte do mercado da semente. O manual da Embrapa sobre a cultura do urucum já apontava, em 1994, as boas perspectivas da bixina nos países com indústria leiteira desenvolvida. A origem dessa semente no Brasil está em produção de urucum no Brasil, e os outros destinos do pigmento, do colorau ao cosmético, em para que serve o urucum.

Norbixina vai no leite do queijo; bixina vai na manteiga

No queijo, o urucum usado é a forma hidrossolúvel, a norbixina; na manteiga e na margarina, a forma lipossolúvel, a bixina. A divisão segue a solubilidade: a bixina dissolve em óleo e é insolúvel em água, e a norbixina, obtida por hidrólise alcalina, dissolve em água alcalina, como registram as especificações do JECFA. O Boletim do CEPPA descreve o extrato lipossolúvel como um dos primeiros corantes usados em margarina e manteiga, e o hidrossolúvel como o tradicional dos queijos.

A IN 211 reflete essa divisão nas gorduras: em óleos e gorduras vegetais e animais, só aparece o extrato base bixina. A norma de segurança também trata as duas formas de modo diferente. O comitê de aditivos da FAO e da OMS fixou ingestão diária aceitável de 0 a 12 mg por kg de peso corporal para a bixina e de 0 a 0,6 mg por kg para a norbixina, na avaliação de 2006 registrada no banco de dados do JECFA. A química e os usos da forma solúvel em água estão em o que é norbixina, e o que esses números significam para o consumidor, em colorau faz mal?.

O que acontece com o urucum que vai para o soro?

Parte do urucum adicionado ao leite não fica no queijo e sai com o soro, o que é indesejado quando o soro vira outro produto. A revisão do Journal of Dairy Science explica que, por isso, o soro de queijos coloridos costuma ser branqueado; nos Estados Unidos, os dois agentes aprovados para isso são o peróxido de hidrogênio e o peróxido de benzoíla, e estudos mostram efeito negativo do branqueamento no sabor do soro.

Para o laticínio, a consequência é de planejamento. Se o soro vai para concentrado proteico, bebida láctea ou ricota, a cor que ele carrega pesa na decisão de colorir o queijo e na dose usada. Dose menor, ajustada pelo teor de pigmento do lote, reduz o que sobra no soro. O mesmo raciocínio de cor transferida para outro produto aparece em urucum em embutidos, em que a norma restringe o urucum à superfície.

Queijo com urucum precisa declarar o corante no rótulo?

Sim: o urucum é aditivo corante e precisa constar da lista de ingredientes, pela função seguida do nome ou do número INS. A regra está no artigo 12 da RDC 727/2022 da ANVISA, e o rótulo pode trazer, por exemplo, "corante natural de urucum" ou "corante INS 160b". A forma com o nome por extenso ajuda o consumidor que procura produto sem corante artificial. Os demais itens obrigatórios estão resumidos em rotulagem de alimentos embalados e temperos.

Quem compara com o carmim, permitido nos mesmos queijos até 125 mg/kg como ácido carmínico pela IN 211, encontra as diferenças de origem, cor e rótulo em urucum ou carmim. O panorama com cúrcuma, páprica e beterraba está em corantes naturais na indústria de alimentos.

Como manter a cor do queijo igual de um lote para outro

Para manter a cor do queijo constante, compre o corante pelo teor de pigmento, dose em miligramas de bixina ou norbixina por quilo e proteja o produto pronto da luz. O roteiro de quem padroniza cor em laticínio:

  1. Especifique a forma. Norbixina para queijo, bixina para manteiga e margarina, como visto acima.
  2. Exija laudo do lote. O teor de pigmento varia entre fornecedores e entre lotes; o laudo precisa informar o método e se o resultado está em bixina ou em norbixina. O que conferir está em ficha técnica e laudo e em o que é bixina.
  3. Calcule a dose pelo pigmento. Com o limite expresso em pigmento, um extrato mais concentrado usa menos produto para o mesmo tom e o mesmo teto legal.
  4. Proteja da luz. A perda de cor do urucum por oxidação depende da temperatura, da luz e do oxigênio, segundo o Boletim do CEPPA; fatiado em embalagem transparente sob luz de vitrine é o cenário de maior risco.
  5. Guarde o corante bem fechado. O extrato também perde força no estoque; os cuidados estão em como armazenar colorau e urucum.

Uma distinção para não errar na compra: o colorau é tempero, mistura de urucum com fubá ou óleo, e não serve para colorir queijo. A antiga norma do colorífico, a Resolução CNNPA 12/1978, descrevia cheiro e sabor "próprios" e admitia até 10% de sal: o colorau leva para a massa carreador, sal e gosto, o que o corante padronizado não leva. A diferença está em urucum e colorau são a mesma coisa?. Para laticínio, o produto certo é o extrato padronizado da indústria de corantes, descrito em corante de urucum INS 160b. O colorau entra na cozinha que usa o queijo, no food service e na indústria de pratos prontos, e as aplicações estão na página do colorau de Paranacity.

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Perguntas frequentes

O que é bixina na manteiga?

É o corante de urucum na forma que dissolve em gordura, o extrato base bixina, INS 160b(i). A IN 211/2023 da ANVISA permite o urucum na manteiga em quantidade suficiente para o efeito, sem limite numérico, e o rótulo deve declarar a função e o nome ou o número INS, como corante natural de urucum. É ele que deixa a manteiga mais amarela e uniforme.

Corante de urucum na manteiga faz mal?

Dentro dos limites, não. O comitê de aditivos da FAO e da OMS (JECFA) fixou ingestão diária aceitável de 0 a 12 mg de bixina por kg de peso corporal, e a ANVISA autoriza o extrato de urucum na manteiga. Quem tem alergia ou restrição alimentar deve conferir a lista de ingredientes e seguir a orientação do médico ou do nutricionista.

O queijo cheddar tem corante?

O cheddar laranja tem. Ele recebe extrato de urucum para manter a cor constante entre as estações, segundo revisão do Journal of Dairy Science. Nos Estados Unidos, o padrão do cheddar lista o corante como ingrediente opcional, por isso existe cheddar branco, sem corante, com o mesmo nome.

O urucum muda o sabor do queijo?

Nas doses permitidas, até 20 mg/kg em bixina ou 25 mg/kg em norbixina, o urucum entra pela cor. O que muda é a percepção: num estudo de 2024 do Journal of Dairy Science, consumidores associaram o cheddar laranja a sabor mais forte. Na cadeia do soro, é o branqueamento feito para tirar a cor do urucum que pode prejudicar o sabor.

Urucum é lipossolúvel?

Depende da forma. A bixina, pigmento original da semente, é lipossolúvel: dissolve em óleo e gordura e é insolúvel em água, por isso vai na manteiga e na margarina. A norbixina, obtida por hidrólise alcalina da bixina, dissolve em água alcalina e é a forma usada no leite do queijo, segundo as especificações do JECFA.

Colorau dá sabor ou só cor?

Dá algum sabor. A antiga norma do colorífico, a Resolução CNNPA 12/1978, descrevia cheiro e sabor próprios, e o produto podia levar até 10% de sal, além de fubá e óleo. Por isso, na panela, o colorau tempera um pouco além de colorir. Para colorir queijo sem mexer no gosto, a indústria usa o extrato padronizado de urucum.

Posso usar colorau para colorir queijo?

Não é o produto indicado. O colorau é tempero, feito de urucum com fubá ou óleo, e leva esses carreadores para a massa. Para queijo, a indústria usa extrato padronizado de urucum, em geral a forma hidrossolúvel, a norbixina, com teor de pigmento declarado em laudo e dentro do limite da IN 211.

Publicado em Colorau e urucum

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