A história do urucum em Paranacity, de 1981 à Indicação Geográfica

Pé de urucum num campo ensolarado com cachos de frutos avermelhados, terra vermelha e céu azul
Imagem ilustrativa.

Pontos principais

  • O cultivo comercial começou em 1981 com um único produtor; João Trindade Lopes plantou o primeiro pé de urucum no município.
  • Paranacity foi o 3º município produtor de urucum em 2015, caiu para 10º em 2020 e chegou ao 1º lugar em 2024, segundo o IBGE.
  • A APRUCITY, associação dos produtores fundada em 2007, é a titular da Indicação Geográfica concedida pelo INPI em maio de 2025.
  • Lei municipal de 2022 oficializou o slogan de capital do urucum; em maio de 2025 a Assembleia aprovou o título de Capital Estadual.

O urucum de Paranacity começou com um único produtor em 1981 e virou, em 2024, a maior lavoura municipal de urucum do Brasil, segundo a Produção Agrícola Municipal do IBGE. No caminho, o município ganhou associação de produtores em 2007, o slogan de capital do urucum por lei municipal em 2022 e a primeira Indicação Geográfica do fruto no país, em 2025.

Esta é a linha do tempo do polo paranaense contada só com o que tem registro: documentos do INPI, dados do IBGE, leis, a associação de produtores e a imprensa regional que foi a campo. Serve a quem compra urucum ou colorau e quer entender de onde vem a fama da região, e a quem pesquisa a cultura no Paraná.

De onde vem o urucum? A planta é nativa da América tropical e já era usada pelos indígenas

O urucum, Bixa orellana, é uma planta da família Bixaceae originária da América tropical, possivelmente da flora amazônica, segundo o manual da Embrapa sobre a cultura do urucum. Muito antes da chegada dos portugueses, os indígenas usavam o fruto como repelente e para proteger a pele do sol; depois, os colonos passaram a usá-lo como condimento, registra a mesma publicação. É um arbusto de crescimento rápido, de 2 a 5 metros de altura, cujo fruto em cápsula guarda as sementes cobertas pelo arilo vermelho que contém a bixina.

O nome também é indígena. "Urucum" vem do tupi "ru-ku", que quer dizer vermelho, segundo a revisão de Vilar e colegas (2014), que registra ainda urucu e açafroa no Brasil, achiote nos países de língua espanhola e annatto no comércio internacional. A cultura comercial que deu fama ao Noroeste do Paraná começou bem depois, em 1981, como mostram as seções a seguir.

Quem plantou o primeiro pé de urucum em Paranacity?

O primeiro pé de urucum de Paranacity foi plantado em 1981 por João Trindade Lopes, segundo o Sebrae Paraná. A reportagem da Agência Sebrae de julho de 2022 o encontrou com 82 anos, ainda na lida, com a família dedicando 51 alqueires ao fruto. O neto, Victor Salvadego Lopes, resumiu o começo: o avô "fez mudas, usou muita mão de obra" numa época em que "ninguém sabia como cultivar".

O registro oficial confirma a data. A ficha técnica da Indicação Geográfica, no INPI, diz que a produção para fins comerciais começou em 1981 "com apenas um produtor" e que, ainda nos anos 1980, a semente plantada ali passou a ser tratada como "o ouro vermelho". Uma reportagem do Sebrae de 2025 situa o início um pouco antes, entre o fim da década de 1970 e o começo da de 1980; o ano de 1981 é o que consta dos documentos da IG.

O município era jovem quando o urucum chegou, numa região, o Noroeste do Paraná, que hoje também concentra a produção de mandioca do estado. Segundo a mesma ficha, Paranacity nasceu como distrito de Nova Esperança em 1949, virou município em 1954, e Cruzeiro do Sul se emancipou um ano depois. Essa origem comum pesaria décadas mais tarde, quando o INPI aceitou os dois municípios na mesma Indicação Geográfica.

O urucum se firmou onde soja e milho sofrem com solo arenoso e chuva irregular

O urucum prosperou em Paranacity porque é uma cultura perene de clima quente que tolera o solo arenoso e a chuva irregular do Noroeste do Paraná. Foi assim que o produtor Marcelo Henrique Santini, que cultiva urucum há 19 anos em Paranacity e Cruzeiro do Sul, explicou a escolha à Folha de Londrina em julho de 2026: a região tem solo de média a baixa fertilidade e chuvas que desfavorecem soja e milho. O agrônomo André Luiz Moron, da secretaria municipal de Agricultura, acrescentou que as altas temperaturas e a luz intensa favorecem produtividade e teor de bixina.

O manual da Embrapa descreve a mesma exigência: plantio a pleno sol, temperaturas médias entre 20 °C e 26 °C, áreas sem geada constante e chuvas bem distribuídas. A outra metade da história é genética. O caderno da Indicação Geográfica registra que o urucum local é das variedades Piave e Piave Anão, e a cultivar Piave rende até 6% de bixina no Paraná, segundo a revisão de Demczuk e Ribani. O que esse número significa para quem compra está em o que é bixina.

Como Paranacity chegou ao primeiro lugar no ranking do IBGE?

Paranacity chegou ao primeiro lugar entre os municípios produtores de urucum em 2024, com 960 toneladas, e repetiu a posição em 2025, com 977. O caminho não foi linear. A série da Produção Agrícola Municipal do IBGE (tabela 1613) mostra o município em terceiro lugar em 2015, em décimo em 2020 e de volta ao topo depois de 2023, quando a área colhida passou de 605 para 850 hectares.

Urucum em Paranacity: quantidade, área e posição entre os municípios do Brasil. Fonte: IBGE, Produção Agrícola Municipal, tabela 1613 (posição calculada sobre os dados da tabela).
AnoProduçãoÁrea colhidaPosição no Brasil
1990210 t210 ha7º
2000276 t395 ha5º
2010660 t600 ha4º
2015897 t690 ha3º
2020393 t605 ha10º
2023605 t605 ha5º
2024960 t800 ha1º
2025977 t850 ha1º

A queda de 2020 e a recuperação recente aparecem também no rendimento: com a mesma área de 605 hectares, o município colheu 393 toneladas em 2020 e 605 em 2023, segundo a mesma tabela. O vizinho Cruzeiro do Sul seguiu a curva e chegou a 525 toneladas em 2025, segundo a PAM do IBGE, o que fez da área da Indicação Geográfica a origem de 88% do urucum paranaense naquele ano. O mapa completo de estados e municípios está em produção de urucum no Brasil.

Quando nasceu a APRUCITY, a associação dos produtores?

A Associação dos Produtores de Urucum de Paranacity, a APRUCITY, foi fundada em 2007, segundo o cadastro do Mapa das Organizações da Sociedade Civil do Ipea. Ela é a titular do pedido de Indicação Geográfica e a responsável pela IG perante o INPI, com sede num sítio da zona rural do município.

A associação passou por um hiato durante a pandemia e tinha 42 membros quando começou a mobilização pela Indicação Geográfica, em 2022, segundo o Sebrae Paraná. Um estudo de pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá publicado em 2026 na revista Colóquio contou 33 produtores organizados na APRUCITY. O município, por sua vez, tinha 120 produtores de urucum, todos da agricultura familiar, segundo a Folha de Londrina, que também informou a criação de uma cooperativa, em fase de implantação, para reduzir a dependência de atravessadores.

Capital do urucum: o slogan virou lei municipal em 2022 e título estadual em 2025

Paranacity já era conhecida informalmente como capital do urucum do Paraná quando a Lei Municipal 2.501/2022 oficializou o slogan "Paranacity Capital do Urucum do Paraná". O lançamento foi no Encontro da Agricultura Familiar e da Cultura do Urucum, em 29 de setembro de 2022, com palestras de pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas e do Instituto de Tecnologia de Alimentos, segundo a prefeitura.

O reconhecimento estadual veio em seguida. O projeto de lei 407/2024, do deputado Anibelli Neto, concede ao município o título de Capital Estadual do Urucum e foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Paraná em 20 de maio de 2025, com a redação final assinada no mesmo dia. Na justificativa citada pela Assembleia, Paranacity aparece como líder da produção paranaense, com 3,7% da produção nacional segundo o Deral.

De 2022 a 2025, o caminho até a Indicação Geográfica

A busca pela Indicação Geográfica começou em julho de 2022 e terminou com a concessão do INPI em 6 de maio de 2025. As etapas, pelos documentos públicos:

  1. Julho de 2022. APRUCITY, prefeitura, Sebrae Paraná, IDR, Senar-PR e Sindicato Rural lançam o projeto, conduzido por uma consultoria, com a meta de uma Indicação de Procedência.
  2. Agosto de 2023. O pedido BR402023000013-0 é depositado no INPI, em 23 de agosto.
  3. Outubro de 2024. O INPI publica exigências; uma delas pede provas de que o nome Paranacity também identifica o urucum de Cruzeiro do Sul.
  4. Maio de 2025. A concessão sai na Revista da Propriedade Industrial de 6 de maio, com o caderno que exige bixina igual ou superior a 5% nas sementes.

A Agência Sebrae chamou o registro de primeira Indicação Geográfica do Brasil para o fruto. O que o selo exige, quem pode usá-lo e o que ele não garante a quem compra estão em Indicação Geográfica do urucum de Paranacity; o caminho da semente certificada para fora do país, em exportação de urucum.

A safra de Paranacity virou pauta da imprensa a partir de 2024

O urucum de Paranacity entrou no noticiário estadual e nacional entre 2024 e 2026, da colheita à Indicação Geográfica. Em junho de 2024, o Caminhos do Campo, da RPC, mostrou o início da colheita em Paranacity e Cruzeiro do Sul, com cerca de cem produtores na região segundo o IDR-Paraná. Em maio de 2025, a Globo Rural noticiou a Indicação Geográfica, e em julho do mesmo ano o Estúdio C, da RPC, visitou o município apresentado como capital do urucum, com o óleo artesanal feito da semente e o suspiro de coco com urucum.

A reportagem mais recente, da Folha de Londrina, de julho de 2026, descreve a economia atual da cultura: colheita entre fevereiro e agosto, com muita mão de obra, e cerca de 80% da produção vendida em semente para indústrias de corante de São Paulo, que abastecem fábricas de massas, laticínios, medicamentos e cosméticos. O restante fica com as fábricas de colorau. O jornal ouviu também a queixa mais antiga dos produtores, a dependência de atravessadores, que a cooperativa em implantação pretende reduzir.

É desse segundo destino que vem o colorau envasado no próprio município, como o da Graneto. Quem quer entender a diferença entre a semente e o tempero pode começar por urucum e colorau são a mesma coisa? e seguir para como o colorau é feito. Do lado industrial, os caminhos da semente estão em para que servem a semente, o pó e o extrato e no corante de urucum INS 160b; o que forma o preço do quilo, em quanto vale o quilo do urucum. O polo visto por quem compra para a indústria está no guia do colorau de Paranacity, e os demais textos da série, no tema colorau e urucum.

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Perguntas frequentes

Qual é a origem do urucum?

O urucum, Bixa orellana, é originário da América tropical, possivelmente da Amazônia, segundo a Embrapa. Os indígenas já o usavam como repelente e para proteger a pele do sol antes da chegada dos portugueses, e os colonos passaram a usá-lo como condimento. Em Paranacity, a produção comercial começou em 1981, com um único produtor.

A que família pertence o urucum?

À família Bixaceae. O urucum, Bixa orellana, é um arbusto perene de crescimento rápido, de 2 a 5 metros de altura, cujo fruto em cápsula guarda as sementes cobertas pelo arilo vermelho que contém a bixina. O nome popular vem do tupi ru-ku, que quer dizer vermelho, segundo a revisão de Vilar e colegas.

Por que Paranacity é chamada de capital do urucum?

Porque a cultura se espalhou pelo município a partir de 1981 e Paranacity ficou conhecida informalmente como capital do urucum do Paraná. A Lei Municipal 2.501/2022 oficializou o slogan, e em maio de 2025 a Assembleia Legislativa aprovou o projeto que dá ao município o título de Capital Estadual do Urucum.

Quantos produtores de urucum existem em Paranacity?

Segundo a Folha de Londrina, em julho de 2026 o município tinha 120 produtores de urucum, todos da agricultura familiar. Nem todos são associados: a APRUCITY tinha 42 membros em 2022, segundo o Sebrae Paraná, e um estudo da Universidade Estadual de Maringá contou 33 produtores organizados na associação.

Em que época é a colheita do urucum em Paranacity?

Segundo produtores e técnicos ouvidos pela Folha de Londrina em 2026, a colheita do urucum em Paranacity vai de fevereiro a agosto e exige muita mão de obra, porque os cachos são cortados à mão. Depois da colheita, as cápsulas secam ao sol antes da extração das sementes, que são vendidas in natura.

Para onde vai o urucum colhido em Paranacity?

A maior parte sai do município em semente. Cerca de 80% da produção vai para indústrias de corante de São Paulo, que abastecem fábricas de massas, laticínios, cosméticos e medicamentos, e o restante segue para fábricas de colorau, segundo a Folha de Londrina.

Publicado em Colorau e urucum

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